Cistermúsica Fronteiras coloca música, pintura, escultura, arquitetura e cerâmica em diálogo
Programação mantém a aposta em cruzamentos artísticos
No último trimestre do ano o Cistermúsica Fronteiras traz a Alcobaça propostas culturais diferenciadoras que colocam a música no centro das artes. Em 2026 a programação dialoga com a pintura, a escultura e a cerâmica em duas propostas de celebração e homenagem, a cargo de Mário Marques, com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, e do Lontano Trio.
Em Gárgulas – Quatro Painéis para um Templo da Memória, a música cruza-se com a escultura e a arquitetura num programa que reúne o saxofonista alcobacense Mário Marques e a Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob a direção musical de Pedro Amaral. Inspirado no conjunto escultórico concebido por José Aurélio em 1990, peças diferenciadoras da arquitetura da Torre do Tombo, o projeto propõe quatro “painéis musicais” onde a música age como a escultura: expulsa o supérfluo para deixar ver a forma.
Cada painel inspira-se nas contradições abordadas pelas gárgulas: O Novo, o Velho e a Morte; A Tragédia e a Comédia; O Bem e o Mal e A Guerra e a Paz — temas estes que pautam a nossa História, como se esta fosse construída precisamente destas forças contrárias. O programa percorre universos sonoros distintos, visita o juízo silencioso de Sarabande, de Debussy orquestrado por Ravel e a dupla máscara de César Rafael em The View from Halfway Down, para saxofone e orquestra. Seguem-se a ironia elegante de Erwin Schulhof, com Alla Valse viennese (allegro) e Alla Tarantella (prestissimo con fuoco) e a depuração transfiguradora de Nelson Jesus em Profondo Abissi, também para saxofone e orquestra. Por fim, a reconciliação entre clareza e festa de Gymnopédie n.º 3, de Satie, orquestrada por Debussy, que abre caminho ao final luminoso com Concertino para Saxofone, de António Victorino d’Almeida.
O saxofonista Mário Marques — que desenvolve atividade regular como solista junto de várias orquestras nacionais —, assume aqui o papel central de um percurso musical que articula obras do repertório clássico e moderno com novas criações de compositores portugueses, explorando diferentes perspetivas sobre a memória, a expressão e a transformação artística.
Criação e memória: o desafio de reinventar a arte e a tradição
A programação Fronteiras prossegue com a proposta do Lontano Trio, que desafiou cinco compositores a deixarem-se contaminar pela obra do mestre pintor e ceramista Manuel Cargaleiro.
O trio composto por Clara Gonçalves (saxofones), Francisco Martins (acordeão) e Pedro Vasquinho (contrabaixo) leva a palco Do Barro ao Som – Homenagem a Cargaleiro, um concerto de música contemporânea que assume que, mais do que uma tradução da cor em som, é uma investigação sobre as formas de organização que sustentam a obra de Cargaleiro, trazendo para o espaço sonoro a reflexão profunda dos processos composicionais apresentados na sua pintura e cerâmica.
Preparado para a comemoração do Centenário do nascimento de Manuel Cargaleiro, o projeto apresenta novas obras de Ana Roque (Litografias), Gonçalo Lourenço (In Memoriam Manuel Cargaleiro), Sara Carvalho (Le départ de l’ombre), Tiago de Sousa Derriça (Mural) e Carlos Marecos (7 danças para Cargaleiro).
Organizado pela ABA – Banda de Alcobaça Associação de Artes, o Cistermúsica Fronteiras conta com o apoio da República Portuguesa – Cultura / Direção-Geral das Artes, com a parceria estratégica do Município de Alcobaça e a parceria institucional da Museus e Monumentos de Portugal, EPE /Mosteiro de Alcobaça.